FRASE DA SEMANA: [Quote of the Week:]
"Liturgias, antigas ou modernas, escritas ou não, são uma ferramenta humana para manter as engrenagens religiosas rodando, reproduzindo o costumeiro, ao invés de exercitar a fé na presença imediata e operação do Espírito."
Arthur Willis

Que fazer, pois, Irmãos? Quando vos Reunis (1Co 14:26)


INTRODUÇÃO
O escritor da epístola aos Hebreus falou: “não deixemos de congregar-nos” (10:25). Esta frase demonstra a necessidade que os filhos de Deus têm de reunirem-se. Um dos aspectos que expressa a vida prática da igreja é o ajuntamento dos crentes. Mas, qual seria a maneira adequada de reunir-se? O padrão das reuniões cristãs hoje em dia está de acordo com o modelo mostrado no Novo Testamento? Incomodado com essas questões, tive o encargo de buscar respostas nas Escrituras sob a guia do Espírito Santo. Espero que as repostas às questões propostas não seja simplesmente para satisfazer a curiosidade de alguém, mas para levar-nos a uma maneira de reunir-nos que sirva para a edificação do Corpo de Cristo. Sabemos que tudo o que os crentes fizerem deve ser...
feito para a glória de Deus (1Co 10:31). Portanto, as reuniões cristãs devem igualmente expressar a glória de Deus. Desta maneira ao entrar algum indouto ou incrédulo nesse tipo de reunião adorará a Deus e testemunhará que Deus está no meio da assembleia (1Co 14:24-25). Por outro lado, reuniões que expressam a glória de Deus trarão edificação aos crentes (v.26). A glória de Deus e a edificação dos crentes são itens que sempre devem estar presentes nas reuniões cristãs. Colocamos o presente comentário nas mãos do Senhor para que Ele possa usá-lo segundo o Seu querer.


O AJUNTAMENTO CRISTÃO
Falar sobre algum aspecto da igreja não é algo simples de se fazer, por isso confio totalmente no Espírito Santo para que o tema que proponho expor possa ser compartilhado de maneira clara e singela através das Santas Escrituras. Abordarei neste comentário as reuniões da igreja no primeiro século propondo-as como parâmetro para os ajuntamentos dos dias atuais. Cremos ser de grande importância ponderar sobre a maneira como a igreja se reunia, tendo em vista que as reuniões de uma assembleia geralmente expõem a sua visão a respeito da igreja e a condição espiritual de seus membros.


A Vida da Igreja no Primeiro Século
A vida da igreja nos seus primeiros anos foi experienciada de maneira muito intensa e isso devido principalmente ao fato de que todos os santos viviam a expectativa da iminente volta do Senhor. O livro de Atos nos mostra um pouco como era esse viver: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração” (2:42, 44-46).

Gostaria de destacar quatro pontos dessa porção da Palavra: a doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações. Pois estes itens têm relação direta com o reunir dos crentes.

O primeiro item que desejo destacar é a doutrina ou o ensinamento dos apóstolos, o qual compreende todo o Novo Testamento. O ensinamento dos apóstolos não pode ser maior e nem menor que todo o Novo Testamento. É nesse ensinamento que devemos perseverar.

O segundo item é a comunhão: o apóstolo João declarou em sua primeira epístola que a nossa comunhão é com o Pai e com Seu filho, Jesus Cristo (1:3). O apóstolo Paulo disse que fomos chamados a essa comunhão (1Co 1:9). Portanto, o Pai e o Filho constituem a base da nossa comunhão com os demais filhos de Deus.

Terceiro, o partir o pão de casa em casa; não desejo discorrer sobre o significado espiritual da Mesa do Senhor, mas simplesmente expor que essa prática mostra que é importante desfrutar de tudo aquilo que o Senhor outorgou aos Seus filhos principalmente no ambiente familiar.

Por fim, o quarto item é a necessidade de perseverar nas orações (Lc 18:1). No tabernáculo do povo judeu o altar de incenso, que representa as orações do povo de Deus, se encontrava no seu centro geográfico. Isso significa que as orações são centrais no viver dos filhos de Deus. Estes quatro itens são muito importantes para que uma assembleia experimente uma vida espiritualmente saudável.


A Maneira de Reunir-se da Igreja Primitiva
Vejamos agora algo sobre como eram as reuniões da igreja na era apostólica. A primeira epístola de Paulo aos Coríntios descreve de maneira sucinta as reuniões da igreja. “, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados” (14:26, 29-31). “Um tem salmo”, segundo o dicionário VINE, a palavra salmo no Novo Testamento significa “cantar hinos, cantar louvores”. O salmo foi posto em primeiro lugar talvez para mostrar a importância do louvor na igreja. “Doutrina” ou ensinamento é fundamental no ajuntamento cristão, precisamos do ministério [serviço] dos pastores e mestres (Rm 12:7; Ef 4:11-12). “Revelação”, o Salmo 119:130 diz: “A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples”. Ao reunir-se, uma assembleia necessita receber revelação na Palavra de Deus. “Língua” e “interpretação” estão juntas, pois estas necessitam estar em cooperação para que haja edificação à igreja (1Co 14:4-5). Quanto a dois ou três profetizarem e os demais julgarem fala a respeito do exercício do discernimento que todos os crentes devem desenvolver (1Co 2:15; 1Jo 2:27). Os profetas falam, mas é somente o Espírito Santo que pode nos ensinar e levar-nos a discernir todas as coisas. A reunião descrita nesse trecho da Palavra lido acima é realmente maravilhosa. Nela todos os membros de Cristo funcionam, todos compartilham a porção que receberam do Senhor. Leiamos algo mais na carta de Paulo aos efésios: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais” (5:19). “Falando entre vós”, este termo, “entre vós”, demonstra o tom informal da reunião da igreja. Nela todos são participantes ativos. O Espírito Santo deve ter total liberdade para guiar os santos nas reuniões segundo o Seu querer.

Sabemos, entretanto, que o modelo bíblico de reunir-se foi se perdendo ao longo do tempo. Quando a degradação começou a entrar na igreja a condução da reunião foi transferida do Espírito Santo por meio de todos os membros para um pequeno grupo de pessoas “especiais”. Isso foi afastando os santos do seu contato direto com Senhor. Se onde nos reunimos não há a prática de todos funcionarem é sinal que existe algo errado com essa assembleia.


A DEGRADAÇÃO
Sabemos que as coisas não ocorrem da noite para o dia, a degradação foi penetrando na igreja sorrateiramente até levedar a massa toda (Mt 13:33; 1Co 5:6). O Cristianismo se tornou oficializado quando o imperador Constantino o declarou a religião oficial do império romano em 313 d.C. Posteriormente nasceu o catolicismo romano. A igreja Católica que hoje conhecemos começou a desenvolver-se quando as igrejas nas cidades maiores começaram a exercer influência administrativa nas igrejas das cidades menores formando assim os distritos ou dioceses. O principal presbítero de um distrito passou a ser chamado de bispo. Consequentemente, sendo Roma a capital do império o bispo de Roma se tornou o principal entre os bispos, vindo a ser denominado posteriormente de “Papa”. Essa distinção entre os lideres deu início ao sistema de clérigos e leigos, a hierarquia. Isso anulou a função dos membros do Corpo de Cristo fazendo-os perder o contato direto com a Cabeça (1Jo 2:27). No livro, Palestras Adicionais sobre a Vida da Igreja, o irmão Watchman Nee desenvolve muito claramente estes assuntos.

Outro ponto de degradação instituído durante o período da oficialização da religião cristã foi a adoção da liturgia. Esta é a instituição de ordem e forma nas cerimônias religiosas A partir de então se estabeleceram regulamentos e formas para as reuniões cristãs. As assembleias que expressavam a vida orgânica do Corpo de Cristo foram substituídas por uma única entidade institucionalizada e hierarquizada.


A REFORMA
Depois de um longo período que a história chama de era das trevas, apareceu o movimento conhecido como Reforma Protestante. Este iniciou uma obra de restauração de tudo aquilo que se havia perdido entre os cristãos. Mas infelizmente esta obra de restauração não foi completa e os reformadores terminaram por receber influência do catolicismo romano. No que concerne à maneira de reunir-se, que é o assunto que interessa neste comentário, os católicos tinham como o ponto alto da sua reunião a eucaristia. A eucaristia é o sacramento, em que o corpo e o sangue de Cristo estão representados por pão e vinho. Nela Cristo se fazia presente. Os protestantes por sua vez deram ao sermão esse lugar de preeminência. Para eles Cristo se fazia presente na ministração da Palavra de Deus. A reunião para tomar o pão e o cálice é um mandamento do senhor e ela é principalmente para ser celebrada em memória do Senhor (1Co 11:24-25). O Senhor Jesus é a Palavra viva de Deus; mas a Sua presença na reunião não é desfrutada somente na ministração da Palavra, mas simplesmente quando reunimos em Seu nome (Mt 18:20). Para aprofundamento no assunto recomendo a leitura do livro “Cristianismo Pagão” do irmão Frank A. Viola. Hoje em dia, temos de reconhecer que a maioria dos cultos cristãos sofreu grande influência da teologia reformada. O lugar de preeminência na reunião pertence ao sermão. No entanto, vimos que no primeiro século as reuniões da igreja não giravam em torno de um sermão, ainda que não negamos a sua importância, mas todos os membros do Corpo davam a sua justa cooperação na reunião.


A NECESSIDADE DE RESTAURAÇÃO
Se desejarmos restaurar aquilo que o cristianismo tradicional perdeu é preciso voltar às Escrituras Sagradas e reencontrar Nelas o padrão para vivermos a vida da igreja. Vejamos a definição de restauração proposta pelos dicionários: “Restaurar significa fazer com que retorne ao seu estado original algo que se degradou, se danificou ou sofreu perda”. O que a maioria dos cultos cristãos perdeu foi a liberdade do Espírito por estarem presos as suas liturgias.Restaurar não é criar algo “novo”, baseado no pragmatismo*, mas voltar às práticas da igreja primitiva. Ao modelo ensinado pelo Espírito Santo. Por um lado temos o guiar do Espírito Santo em nosso interior, por outro temos os exemplos deixados nas Escrituras. Do contrário o que faremos é “inovar” e não restaurar. Não quero dizer com isso que tudo o que é “novidade” seja condenado, não, de forma alguma, mas o que desejo expor é que o padrão das nossas práticas não deve advir de conceitos criados para adequação à modernidade e sim do Espírito Santo pelas Escrituras. Jamais devemos pensar que precisamos adequar os ensinamentos de Jesus aos dias atuais. A maior necessidade do homem tripartido é e sempre foi Deus mesmo.

Outro item que devemos notar é que o homem natural tem o costume de “oficializar” as práticas que obtiveram êxito. Trocando os princípios da Palavra de Deus pelos resultados obtidos através de práticas, ou seja, se prender ao método ao invés de focar o objetivo. Criar artifícios para atrair os homens para Deus é negar o poder do evangelho. Restaurar então é trazer as reuniões da igreja de volta ao controle do Espírito Santo. Um dos grandes perigos da monopolização da reunião pelo homem é, além de anular os membros de Cristo, ocultar o verdadeiro estado espiritual dos irmãos.


Vivendo a Vida da Igreja de Casa em Casa
Leiamos um versículo muito interessante no livro de Atos: “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa” (20:20). O Cristianismo tradicional ressalta o aspecto “público”; ele é dirigido a partir do púlpito. A igreja primitiva ressaltava o viver “de casa em casa”; ela era vivida a partir das famílias. Ainda que não negasse a necessidade de orientação pública, a ênfase da igreja na era apostólica estava no viver a vida cristã em pequenas “assembleias” em comunhão uns com os outros (At 4:32). No primeiro século era comum as assembleias se reunirem nas casas dos irmãos. Vejamos alguns exemplos. Paulo escrevendo aos Romanos diz: “saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles” (16:5). Em Roma havia uma “assembleia” que se reunia na casa de Áquila e Priscila. Na epístola de Paulo a Filemom diz: “e à irmã Áfia, e a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que está em tua casa” (v.2). Aos Colossenses destaca: “Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa” (4:15).

Baseado nesses textos das Escrituras Sagradas acredito ser o desejo do Espírito Santo restaurar essa maneira de reunir de casa em casa, onde todos têm liberdade e responsabilidade, sob a orientação do Espírito, de suprir, exortar e encorajar uns aos outros.

Nesse ambiental informal e familiar todos podem ajudar e também receber ajuda, e o verdadeiro estado espiritual dos santos será expresso neste tipo de ajuntamento. Senhor nos conceda a graça necessária para trilharmos esse caminho de volta às primeiras obras (Ap 2:5). O termo “primeiras obras” expresso no livro do Apocalipse pode ser traduzido por “melhores obras”, isto é, as obras que são feitas em total dependência do Espírito Santo. Nas cartas às igrejas em Apocalipse o Senhor está chamando vencedores. Cremos que nesses tempos do fim temos de nos levantar e vencer a hierarquia, a liturgia e tudo o mais que estorve o Espírito Santo nas reuniões da igreja. Jesus é o Senhor!


* O Pragmatismo constitui uma escola de filosofia estabelecida no final do século XIX, com origens nos Estados Unidos da América, caracterizada por apenas considerar uma ideia como útil e necessária caso ela tenha efeitos práticos e valor funcional.



Antipas Brasil

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