FRASE DA SEMANA: [Quote of the Week:]
"Liturgias, antigas ou modernas, escritas ou não, são uma ferramenta humana para manter as engrenagens religiosas rodando, reproduzindo o costumeiro, ao invés de exercitar a fé na presença imediata e operação do Espírito."
Arthur Willis

Respostas ás Objeções contra a Liderança nas Igrejas nos Lares



Liderança Em Atos e Nas Cartas De Paulo - Parte 01
Muitas das objeções lançadas contra o estilo de liderança das igrejas nos lares existem por causa de traduções mal feitas do Novo Testamento, e por causa da tradição que perdura desde a Idade Média. A mentalidade institucional dos tradutores da Bíblia tem transmitido aos povos de língua portuguesa, neste tema liderança eclesiástica, a idéia de uma liderança oficial, hierárquica e posicional, que não se encontra no Novo Testamento original. Termos como Bispos, Pastores, Ministros, e Presbíteros, têm sido mal interpretados e mal traduzidos, gerando e perpetuando a mentalidade clerical.

Nesta seqüência de artigos, vamos analisar algumas passagens que têm sido mal interpretadas pelos que defendem a liderança hierárquica na igreja, e usadas para fazer oposição ao estilo do líder-servo, voluntário, das igrejas orgânicas (nos lares).


Atos 1.20 fala sobre ministério oficial?
“Porquanto no livro dos Salmos está escrito: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e: Tome outro o seu ministério.” (Atos 1.20. ARA)

“Porque, prosseguiu Pedro, “está escrito no Livro de Salmos: ‘Fique deserto o seu lugar, e não haja ninguém que nele habite’; e ainda: ‘Que outro ocupe o seu lugar’.” (Atos 1.20. NVI)


A palavra grega original que foi traduzida na versão Almeida Revista e Atualizada (ARA) como “ministério” e na NVI como “lugar” é episskopén, que significa propriamente “supervisão”, ou “função de supervisionar”. A tradução correta desse verso é:

“Pois está escrito no livro dos Salmos: ‘Que a morada dele fique deserta e não haja quem habite nela’ e ‘Que outro receba a função de supervisionar, que era dele’.” (Atos 1.20)
Portanto, sequer ocorre a palavra “ministério” em Atos 1.20. Este erro de tradução induz ao pensamento clerical de um ministério hierárquico. O episcopado (supervisão) é uma função para a qual alguns homens cristãos receberam o chamado de Deus para cuidar das igrejas de uma determinada região, para não permitir que doutrinas heréticas as invadam. Assim como os dons, as funções e tarefas exercidas na igreja não são cargos nem ofícios; são serviços prestados de coração visando à edificação do Corpo de Cristo.

Romanos 11.13 fala sobre ministério oficial?
“Mas é a vós, gentios, que falo; e, porquanto sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério,” (Rom. 11.13. ARA)

“Estou falando a vocês, gentios. Visto que sou apóstolo para os gentios, exalto o meu ministério,” (Rom. 11.13. NVI)

Mais uma vez um erro de tradução coopera para o errôneo entendimento do verso. A palavra grega original que foi traduzida na versão Almeida Revista e Atualizada (ARA) e na NVI como “ministério” é diakonían, que significa propriamente “serviço”. Assim, a tradução correta desse verso é:

“Mas digo a vocês, gentios; visto, então, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu serviço.” (Rom. 11.13)
Quem faz um serviço, serve, e quem serve é um servo, não uma autoridade, um oficial. Também neste verso a palavra “ministério” não aparece quando o lemos na língua original do Novo Testamento.

E 1 Timóteo 3.1 não trata de um ofício eclesiástico?
“Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja.” (1 Tim. 3.1. ARA)

“Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função.” (1 Tim. 3.1. NVI)

Neste verso a palavra original grega traduzida na ARA como “obra” e na NVI como “função” é ergou (pronuncia-se ergu) e significa “trabalho”, “obra” ou “tarefa”. A ARA traduziu mais literalmente. A NVI traduziu como “função” e não é uma má tradução, pois traduz o sentido da palavra. O importante é observar que as principais versões brasileiras trazem traduções corretas para este verso. O episcopado é uma tarefa, uma função, uma realização, e não um cargo. Tanto o original quanto as traduções transmitem isto. As pessoas que enxergam o episcopado como cargo, ao lerem este verso, o fazem por um vício de interpretação. Suas mentes estão contaminadas com o clericalismo reinante na igreja moderna e quando lêem este verso, enxergam o que ele não diz.

1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito são conhecidas como Cartas (ou epístolas) Pastorais. Isto não significa que Timóteo e Tito eram Pastores de igreja?

Não. As cartas de Paulo a Timóteo e a Tito ficaram conhecidas como Cartas Pastorais somente desde o Século XVIII para cá. Porém isto é um erro de classificação.

Timóteo e Tito não eram pastores de igrejas locais. Eles eram companheiros apostólicos de Paulo (trainees de apóstolo) e estavam sempre viajando de um lugar a outro. Eventualmente, assim como Paulo, eles passaram mais tempo em um lugar ou outro, para fortalecer uma igreja (como foi o caso de Tito em Creta e de Timóteo em Éfeso). Esses homens não eram ministros residentes. Eles eram parte do circulo apostólico de Paulo e estavam constantemente viajando (Rom. 16.21; 1 Cor. 16.10; 2 Cor. 8.23; 1 Tess. 1.1; 2.6; 3.2; 2 Tim. 2.15; 4.10). Chamar essas três cartas de “Epístolas Pastorais” reflete um vício moderno e não corresponde à verdade.


Liderança Em Atos E Nas Cartas De Paulo - Parte 02
Em sequência ao estudo sobre liderança da igreja no Novo Testamento, vamos analisar mais algumas passagens em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal traduzidas ou mal interpretadas, fazendo com que muitos irmãos (mal) usem a Bíblia para defender uma liderança hierárquica na igreja.

As qualificações constantes nas chamadas “epístolas pastorais” (1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.6-10) não provam que bispos ou presbíteros são oficiais da igreja?
“Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo.” (1 Tim. 3.1-7. NVI)

“É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão. Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. Ao contrário, é preciso que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela.” (Tito 1.1-7. NVI)

Primeiramente, convém ressaltar que tudo que está escrito nas cartas a Timóteo e a Tito foi feito para instruir companheiros apostólicos. Já demonstramos antes que nem Timóteo nem Tito eram pastores de igreja (veja a parte 1 deste estudo). Paulo estava escrevendo para companheiros apostólicos, e não para igrejas ou para pastores.

Na passagem citada, a palavra que induz ao pensamento institucional é “governar”, que está em 1 Timóteo 3.4 e 5, e que, como veremos aqui, foi mal traduzida do Grego. A palavra grega traduzida como “governar” é proistámenos, que significa mais propriamente “guiando”, “estando à frente” ou “liderando”. Governar é ter autoridade para decidir: é mandar. Liderar/guiar é bem diferente; é mostrar o caminho e influenciar para que andem por ele. O governante é obedecido; o líder é seguido. O governante é temido; o líder é querido. O governante tem uma autoridade dada por uma instituição; o líder tem autoridade interior. A tradução correta deste verso é:

“Liderando bem sua própria casa, sendo os seus filhos sujeitos a ele, com todo o respeito. Pois, se alguém não sabe guiar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3.4, 5)

Paulo está dizendo que a relação de liderança que o homem exerce na família se refletirá na igreja. Se ele não é respeitado pelos seus filhos, não será também respeitado na igreja. Se ele não orienta sua família, não saberá orientar os irmãos da igreja.

O que temos, portanto, nessas passagens, são qualidades essenciais de um verdadeiro supervisor de igreja, não uma lista de qualificações para um cargo a ser preenchido com uma eleição ou indicação. O próprio Paulo não chama o episcopado de ofício ou cargo, mas de função (1 Tim. 3.1). Nessas duas passagens, Paulo estava recomendando a Timóteo e a Tito que observassem, nas igrejas, os homens que já possuiam essas qualidades, e os reconhecessem perante o povo da igreja, para que eles pudessem lhes servir de guias e exemplos.

Por conseqüência, igualar os bispos nessas passagens com os modernos oficiais de igreja é “forçar a barra” na interpretação. É impor ao Novo Testamento a mentalidade do homem moderno, e assim, distorcer a Palavra de Deus.

1 Coríntios 12.28 não está determinando uma hierarquia de oficiais da igreja?

“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Coríntios 12.28. ARA)

Existe uma “mania” peculiar de pessoas do ocidente (herdada da cultura romana) de achar que toda lista deve ser vista como um posicionamento hierárquico do tipo “de cima para baixo”. Só que, enquanto o leitor ocidental moderno enxerga em listas como a de 1 Coríntios 12.28 uma hierarquia de ofícios, o Novo Testamento não o faz.

A questão de estruturas de autoridade não está sendo tratada nessa passagem. Portanto, interpretar a passagem como uma hierarquia de oficiais da igreja não é fazer uma exegese do texto; é impor a ele um sentido que ele não dá.

A tradução da ARA não traz nenhum problema nesta passagem. A dificuldade aqui é de interpretação, não de tradução.

A ordem que está sendo descrita no verso em pauta é uma ordem cronológica, e não posicional. O que Paulo está dizendo aqui é que Deus colocou na igreja primeiramente os apóstolos – esses foram os primeiros a surgir na igreja. Depois surgiram os profetas, e em terceiro os mestres; depois os demais. Não há qualquer indicação na passagem, de que os profetas eram subordinados aos apóstolos como se fossem oficiais em uma força armada. Quando o Senhor revelava algo a um profeta, este não pedia autorização a um apóstolo para proclamá-lo. Ao contrário, às vezes os profetas proclamavam revelações de Deus aos apóstolos, e esses as ouviam como ao Senhor (como no caso do profeta Ágabo – Atos 11.28 e 21.10). Da mesma forma os mestres não estavam subordinados aos profetas nem aos apóstolos. Todos eram subordinados diretamente a Jesus Cristo – o cabeça da igreja – como deve ser na igreja também hoje.

Não há na passagem hierarquia de ofícios. Não vejo na passagem sequer hierarquia de dons, como alguns estudiosos vêem. Vejo simples e naturalmente uma ordem cronológica de como Deus foi distribuindo dons ao seu povo e vocacionando-os para diferentes serviços. Tudo para a edificação da igreja.

E Atos 20.28; 1 Tess. 5.12; 1 Tim. 5.17-18; e Hebreus 13.17 não dizem que os bispos têm que “presidir ou governar sobre” a igreja?
Analisemos uma a uma as passagens.

“Cuidai pois de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue.” (Atos 20.28. ARA)

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20.28. NVI)

Neste verso há um dos casos mais explícitos de erros de tradução que prejudicaram a doutrina da igreja. A palavra “sobre” foi traduzida da preposição grega en, que significa “entre”. Os presbíteros não estão sobre a igreja, como se fossem superiores; eles estão entre os irmãos, no meio da igreja, como iguais. Pesquisei em todos os léxicos Grego-Português publicados que tive acesso, e não encontrei NENHUM que traduzisse esta palavra como “sobre”. Assim como o leitor, fiquei surpreso e estupefato de ver como traduziram essa palavra erradamente, alterando o sentido do verso e da passagem inteira.

Os presbíteros têm um chamado nobre a exercer nas igrejas locais. São os pastores das igrejas. Devem ser honrados e respeitados. Mas nunca foram nem serão superiores hierarquicamente. Eles são iguais. Vejamos os outros versos.

“Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam;” (1 Tess. 5.12. ARA)

“Agora lhes pedimos, irmãos, que tenham consideração para com os que se esforçam no trabalho entre vocês, que os lideram no Senhor e os aconselham.” (1 Tess. 5.12. NVI)

A palavra grega traduzida na ARA como “presidem” é proistámenos, e já comentamos sobre o sentido adequado dessa palavra neste artigo. Aliás, a NVI a traduz corretamente como “lideram”. A palavra “sobre” na tradução da ARA é a mesma palavra grega en, já comentada na seção anterior. Dessa vez, a NVI a traduziu corretamente como “entre”. A tradução desse verso na ARA confunde o leitor moderno, passando-lhe a idéia errônea de que Paulo estava reafirmando a posição hierárquica organizacional dos presbíteros de Éfeso sobre os demais irmãos.

“Os anciãos que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino. Porque diz a Escritura: ‘Não atarás a boca ao boi quando debulha.’ E: ‘Digno é o trabalhador do seu salário.’” (1 Tim. 5.17-18. ARA)

“Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal”, e “o trabalhador merece o seu salário”.” (1 Tim. 5.17-18. NVI)

A palavra que aparece como “governam” na ARA é a mesma proistámenos e como já foi visto, ela deveria ter sido traduzida como “guiam” ou “lideram”. Presbíteros não governam; eles lideram, guiam.

Além disso, acerca desse verso, há pessoas que lhe forçam a interpretação, dizendo que na palavra “honra” (Gr. timés) está implícito o sentido de “honorários”, porque os versos seguintes dão este sentido. Na verdade, essas pessoas desconhecem que Paulo está utilizando na passagem um recurso de linguagem chamado paralelismo, muito usado pelos escritores hebreus. Este recurso pode ser entendido como uma argumentação lógica, onde os elementos se colocam em paralelo. Veja como isto é feito:

Afirmação principalO presbítero que lidera e ensina merece honra
Argumentos paralelos
O boi merece comer enquanto debulha
O trabalhador merece salário

Montando as idéias esta passagem pode ser assim entendida: “Assim como o boi merece comer enquanto debulha, e o trabalhador merece o seu digno salário, os presbíteros que lideram bem, principalmente aqueles que pregam a palavra de Deus e a ensinam, merecem ser muito honrados pela igreja local.”
Mais uma vez, o Novo Testamento não fala de hierarquia, nem de cargos, nem de ofícios, nem de salários de pastores. O “salário” de um pastor... é muita honra.

Vejamos agora Hebreus 13.17.

“Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Heb. 13.17. ARA)

“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.” (Heb. 13.17. NVI)

A palavra grega traduzida como “obedecei” na ARA e “obedeçam” na NVI, é peithesthe. Essa palavra vem do radical peitho, que significa “persuasivo”. O correto, então, seria traduzir peithesthe como “deixem-se ser persuadidos” ou “procurem concordar”.

A outra palavra mal traduzida neste verso é upeikete, traduzida como “submetam-se”. Este verbo, embora também possa assumir o sentido de “submeter-se” em outro texto fora do Novo Testamento, não parece ser o sentido do verso aqui. Uma vez que o Novo Testamento nunca trata os líderes da igreja como "senhores", a quem se deva submeter-se, o sentido mais apropriado de upeikete seria “dar precedência”, ou “dar preferência”

Assim, a tradução adequada do verso é:

“Procurem concordar com os seus líderes, e lhes dêem a preferência; porque vigiam pelas almas de vocês como se fossem prestar contas delas; para que o façam com alegria e não reclamando, porque isso não seria proveitoso.” (Heb. 13.17. ARA)

Esta tradução (nossa) fica em completa harmonia com o ensino do Novo Testamento sobre a liderança da igreja. Embora não sejam “oficiais”, os líderes eclesiais devem ser muito honrados, queridos e preferidos. Embora só devamos ser submissos a Cristo, o único Senhor, devemos procurar concordar com nossos líderes, que tanto se dedicam ao Senhor e à sua igreja.
             Liderança Em Atos E Nas Cartas De Paulo - Parte 03
Marcio Rocha


Nesta terceira parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais alguns argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã.

Romanos 12.8, não ensina que Deus capacita certas pessoas para presidir a igreja? Lá, Paulo exorta que aquele que preside, deve fazê-lo com zelo.

Mais uma vez a palavra grega proistámenos foi mal traduzida em Português. A versão de João Ferreira de Almeida (ARA ou ARC) traduz essa palavra como “presidem”. Proistámenos (como já foi dito) significa “guiam” ou “lideram”. Presidir conota ter a responsabilidade pessoal de decidir os rumos de uma organização, em caráter final. Presidente é um conceito moderno que significa alguém que tem o poder final de decisão em uma organização ou comunidade, e isto é estranho ao Novo Testamento. Não se encontra um só caso no Novo Testamento em que algum presbítero local decide por toda a sua comunidade. Mesmo os apóstolos não clamavam para si este poder absoluto sobre uma comunidade local de cristãos. Por outro lado, guiar ou liderar é, antes de tudo, orientar e influenciar pelo conhecimento, sabedoria e exemplo. Essa é a autêntica função do pastor cristão. Decidir é prerrogativa de toda a igreja reunida (Atos 15), e jamais deve ser dada a uma só pessoa. Neste verso, concordo com a tradução da NVI: “Se é exercer liderança, que a exerça com zelo;...”

Atos 14.23 e Tito 1.5 ensinam que os presbíteros são eleitos. Isto não implica que eles são oficiais da igreja?
“E, havendo-lhes feito eleger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (Atos 14.23, ARA)

“Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado.” (Atos 14.23, NVI)

Talvez a intenção do tradutor João Ferreira de Almeida quando escreveu “eleger” tenha sido a de que Paulo e Barnabé tenham escolhido homens maduros na fé e na idade (presbíteros) para liderar aquela igreja local em Derbe. Porém a mente moderna entende “eleger” como selecionar democraticamente por voto majoritário – e isto está completamente em desacordo com o que de fato aconteceu. Não houve “votação” feita pela igreja. Ao invés disso, aqueles apóstolos – viajantes itinerantes – apontaram, indicaram quem eram os homens que já estavam nas igrejas em Derbe, aos quais elas deveriam respeitar, honrar, e se deixar ser lideradas. E inclusive, era mais de um presbítero-pastor em cada igreja – o texto deixa isto claro: “presbíteros em cada igreja”. A liderança em uma igreja local deve ser colegiada, nunca individual. Repare que os presbíteros já estavam lá. Já exerciam naturalmente as funções dos presbíteros. Os apóstolos só fizeram apontá-los perante as igrejas, como que reconhecendo-os perante todos.

Em Atos 14.23, o verbo grego é cheirotonésantes, que significa “escolher, apontar, indicar, mostrar”. A melhor tradução para o verso é:

“E, apontando presbíteros para eles em cada igreja, com orações e jejuns os confiaram ao Senhor, em quem haviam crido.” (Atos 14.23)

Vejamos agora Tito 1.5.

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses anciãos, como já te mandei;” (Tito 1.5, ARA)

“A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí.” (Tito 1.5, NVI)

As palavras grifadas nas citações acima, da ARA e da NVI respectivamente, foram traduzidas a partir da palavra grega katastêsses. Essa palavra está no tempo futuro do verbo katístemi, o qual possui os significados diversos de: designar; constituir; apontar; ordenar; estabelecer. É importante ressaltar que toda palavra que possui um amplo campo semântico, ou seja, que pode denotar ou conotar mais de um significado, deve ser entendida pelo seu contexto. A palavra “manga”, por exemplo, não significa a fruta manga na frase “enganchou a manga na fechadura, quando passou apressado; por isso a rasgou”. Embora o significado de manga como fruta faça parte do campo semântico da palavra “manga”, o lógico nesta frase é compreender que se está falando de manga de camisa. Da mesma forma, considerando o contexto do Novo Testamento, e em harmonia com outras passagens em Atos e nas cartas de Paulo, katístemi não pode significar “designar”, “constituir”, nem “ordenar”, nem “estabelecer”. Os presbíteros, no primeiro século, eram apontados pelos apóstolos (Atos 14.23). Assim, o verso deveria ter sido traduzido para o Português da seguinte forma:

“Por causa disto te deixei em Creta, para que colocasses as coisas restantes em ordem e apontasses presbíteros em cada cidade, como eu te mandei.” (Tito 1.5)

Pelo padrão do Novo Testamento, os presbíteros de uma igreja local não devem ser eleitos pela igreja. Devem ser reconhecidos e indicados pelo obreiro, ou pelos obreiros que a plantaram.

Paulo não utilizava o título de Apóstolo, quando se identificava na introdução de suas cartas?
Não. Se apóstolo fosse um título, Paulo se identificaria como “Apóstolo Paulo”, e não como “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo”, assim como consta em nossos Novos Testamentos. Quando alguém exalta o título de uma pessoa, ele ou ela colocam o título primeiro, antes do nome próprio. Com essa intenção as pessoas chamam “Doutor Fulano” a alguém que é médico, ou concluiu um doutorado. Assim, incorporam o título de uma pessoa ao seu nome próprio. Essa é uma mentalidade bastante institucional e distanciada do Novo Testamento. É muito comum nas modernas igrejas institucionalizadas, os irmãos chamarem os líderes que foram empossados como pastores de “pastor” ou “reverendo”, antes dos seus nomes próprios. Isso é maléfico para a igreja, pois cria uma separação entre crentes comuns – os “leigos” e crentes "especiais" – os clérigos ou ministros.

Por outro lado, quando alguém coloca o nome da pessoa na frente da sua função, ela está dizendo que, embora reconheça a função da pessoa na comunidade, ela é um ser humano como qualquer outro. Paulo se identificava como Paulo – aquele que tinha a função de ser um apóstolo de Jesus Cristo; um plantador de igrejas, um missionário, enviado para pregar o evangelho e fazer discípulos do seu Mestre. Ser apóstolo não era um título para Paulo; era sua missão, sua carreira... e seu bom combate.


Liderança em Atos e Nas Cartas de Paulo - Parte 04

Marcio Rocha


As versões brasileiras da Bíblia muitas vezes a traduzem com tendências institucionais nas passagens relativas à liderança na igreja, levando as pessoas a interpretarem que as igrejas do Novo Testamento praticavam uma liderança hierárquica, titular e posicional – o que está longe da verdade. Nesta quarta parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI)

Efésios 4.11 não fala de clérigos?


“E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres” (Ef. 4.11. ARA)

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (Ef. 4.11. NVI)

Não. Efésios 4 fala de pessoas vocacionadas por Deus para servir ao seu povo e edificá-lo pela orientação e ensino. Os versos 12-13, em Grego, dizem:

“Para o aperfeiçoamento dos santos, para servir, para edificar o corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4.12-13. Tradução nossa)

O texto bíblico em momento algum passa a idéia de cristãos especiais, em contraste com cristãos comuns – leigos. Deus simplesmente vocacionou alguns de seus servos para serem apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-professores, visando respectivamente a plantação de igrejas e a edificação dos cristãos. O líder cristão é um líder-servo (a exemplo de Jesus Cristo) e não um líder autoritário (a exemplo dos líderes do mundo).

Entretanto, não estamos afirmando aqui que todos os cristãos são apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; mas que esses são chamados especiais feitos a algumas pessoas que estão no corpo de Cristo. E esses chamados NÃO tornam especiais as pessoas que os exercem. Efésios 4 não está falando de clérigos, nem de sacerdotes ou “ministros do evangelho”. O que está em vista em Efésios 4 são funções especiais, ao invés de títulos ou posições autoritárias.

A menção de “governos” ou “administração” em 1 Coríntios 12.28 demonstra que a igreja primitiva no primeiro século possuía oficiais de igreja?
“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Cor. 12.28. ARA)

“Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas.” (1 Cor. 12.28. NVI)

A palavra do Grego Koiné traduzida como “governo” na ARA e como “administração” na NVI é kubernéssis. Segundo os maiores eruditos nos manuscritos do Novo Testamento – Doutores Kurt Aland, Matthew Black, Carlo Martini, Bruce Metzger e Allen Wikgren -- esta palavra significa “habilidade de liderar” [1] . Já vimos que liderar não é governar, mas sim, orientar e influenciar pelo exemplo. Assim, “governo” ou “administração” são traduções pobres para kubernéssis. São, na verdade, imposições do pensamento do homem moderno ao texto bíblico. O único governo que a igreja conhece é o de Cristo (Isa 9.6).

A metáfora de Paulo do Corpo de Cristo não demonstra que a autoridade funciona de modo hierárquico? Isto é, quando a cabeça quer enviar um comando à mão, ela envia antes um comando ao braço. Assim, a mão se submete ao braço para que este se submeta à cabeça.
Nada poderia estar mais longe da verdade do que este pensamento. Quem conhece anatomia do corpo humano sabe que não é assim que ele funciona.

O cérebro envia comandos diretamente àquelas partes que ele quer controlar, por meio do sistema nervoso periférico. Consequentemente, o cérebro controla todas as parte do corpo diretamente e imediatamente, através dos nervos. Ele não envia comandos através de um esquema tipo cadeia-de-comando, invocando outras partes do corpo.

A metáfora de Paulo não poderia ser mais clara. A cabeça do corpo humano é conectada diretamente a cada parte do corpo, por meio do sistema nervoso. Assim também Cristo – O Cabeça da Igreja – está diretamente conectado a cada membro do seu corpo, a cada pessoa lavada com o seu sangue. Assim como a cabeça não envia comandos a uma parte do corpo para que esse comande outra parte, Cristo não envia comandos a algumas “autoridades da igreja” para que essas comandem os “leigos”.

O Corpo de Cristo – a igreja – não precisa de clérigos, intermediários entre ela e Deus. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1 Tim. 2.5). A sujeição mútua, a interdependência, e não a submissão hierárquica é o que coordena propriamente a igreja.

Todo corpo físico possui uma cabeça. Da mesma forma, todo corpo local de crentes necessita de uma cabeça. Se ele não tiver cabeça fica caótico. Os pastores são as cabeças das igrejas locais. Eles são pequenas cabeças abaixo da Liderança de Cristo.
Esta idéia é típica do modo de pensar de humanos caídos. Não existe o menor suporte bíblico para este pensamento. A Bíblia NUNCA se refere a um humano como “cabeça” de uma igreja. Este título é exclusivo de Jesus Cristo. Ele é o ÚNICO cabeça de uma congregação local. Aqueles que se proclamam cabeças de igrejas suplantam o senhorio de Cristo.

João 5.30; 14.28, 31; e 1 Coríntios 11.3 não ensinam uma relação hierárquica dentro da Trindade Divina?
“Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou.” (João 5.30. NVI)

“Vocês me ouviram dizer: Vou, mas volto para vocês. Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu.”
(João 14.28.NVI)

“Todavia é preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço o que meu Pai me ordenou. Levantem-se, vamo-nos daqui!” (João 14.31. NVI)

“Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.” (1 Cor. 11.3. NVI)

Essas passagens não se referem ao relacionamento eterno do Filho com o Pai na Trindade. Elas se referem ao relacionamento temporal de Cristo com o Pai enquanto ele esteve como humano, na terra. Ele voluntariamente se submeteu à vontade do Pai enquanto esteve aqui. Na Trindade eterna, porém, o Pai e o Filho experimentam uma mútua submissão. Eles são iguais. A Trindade é uma comunhão de pessoas co-iguais. A comunhão do Deus triuno é igualitária e não hierárquica.


Veremos na próxima parte, outras objeções levantadas contra a liderança não hierárquica com base em outras passagens do Novo Testamento fora de Atos e das cartas de Paulo.


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[1] ALAND, et al. The Greek New Testament – with dictionary. 3rd corrected edition. United Bible Societies. Suttgart: 1983.

Liderança nos Evangelhos e nas Cartas Gerais do Novo Testamento


Marcio S. da Rocha


Nesta última parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados nos Evangelhos e nas cartas gerais do Novo Testamento. Muitas delas têm sido mal traduzidas, mal compreendidas, e utilizadas para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã, enquanto que, na realidade, a liderança em todo o Novo Testamento era funcional – uma liderança baseada na maturidade, na integridade e nos dons de cada líder, cuja autoridade era reconhecida espontaneamente pelo grupo, devido ao exemplo de vida e não à imposição institucional de cargos ou títulos. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI)

Hebreus 13.17 não manda que nós obedeçamos e nos submetamos aos nossos líderes, implicando que os líderes cristãos possuem autoridade oficial?
“Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Heb. 13.17. ARA)

“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.” (Heb. 13.17. NVI)
Mais uma vez, uma olhada no Grego bíblico esclarece bastante. A palavra traduzida como “obedecei” no verso 17 de Hebreus 13 é a palavra peitho. Peitho significa “persuadir, convencer, aplicar persuasão[1]” e não “obedecer”. Este significado (persuadir) consta em vários léxicos Grego-Português, porém, nenhum tradutor usou-o para traduzir a palavra em Português com o seu significado real, devido às suas preconceituosas mentalidades institucionais. Como esta palavra aparece no verso na voz passiva, este verso deveria ter sido traduzido como “deixem-se ser persuadidos pelos seus líderes”.

O texto é uma exortação para valorizar as instruções dos supervisores das igrejas locais – os presbíteros – e talvez também dos apóstolos e de seus cooperadores. Não é uma exortação à obediência cega. O verso implica que o líder deve persuadir – convencer – ao invés de coagir com uso de poder institucional. Obediência cega a líderes humanos não se harmoniza com as instruções sobre liderança na igreja do Novo Testamento.

A submissão de que fala o verso é voluntária, baseada no respeito à autoridade interna que os líderes cristãos devem ter, devido aos seus exemplos de vida e conhecimento da Palavra de Deus. Jamais, no Novo Testamento, a submissão aos líderes é forçada pelo poder institucional de um cargo “oficial”.

A Bíblia ensina que aqueles que cuidam das almas das igrejas têm que prestar contas a Deus. Isto não significa que essas pessoas têm autoridade sobre os demais?
Hebreus 13.17 diz que aqueles que supervisionam as igrejas têm que prestar contas a Deus pelo que fazem. Prestar contas a Deus não é o mesmo que ter autoridade sobre os outros. Todos os crentes têm que prestar contas a Deus do que fazem (Mat. 12.36; 18.23; Luc. 16.12; Rom. 3.19; 14.12; Heb. 4.13; 1 Ped. 4.5). Porém, isto não significa que eles têm autoridade sobre outros. Aliás, desejar ter domínio sobre os outros é carnal – não provém do Espírito Santo.

Jesus não endossou a autoridade oficial quando mandou seus discípulos obedecerem aos escribas e aos fariseus porque eles se assentam na cadeira de Moisés?

“Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam.” (Mat. 23.2-3. NVI)

Quando Jesus disse que os fariseus se assentam na cadeira de Moisés, afirmou que eles usurparam a autoridade sobre o povo. Eles mesmos se apontaram como chefes. Os fariseus não tinham autoridade; eram falsos, hipócritas (Mat. 23.5-7; 13-33 Luc. 20.46). Eles ensinavam a Lei de Moisés, mas eles mesmos não seguiam as próprias instruções que davam ao povo.

A “cadeira de Moisés” era uma cadeira especial colocada no canto de uma sinagoga, onde as Escrituras eram lidas. Quando os fariseus sentavam na cadeira de Moisés, eles liam as Escrituras. Como as Escrituras têm autoridade divina, o que os fariseus diziam, neste caso, deveria ser seguido. A autoridade era das Escrituras, e não dos fariseus. A grande lição aqui é: mesmo que um falso líder cristão ensine a Bíblia, se o seu ensino for realmente bíblico, deve ser respeitado e seguido (o ensino, porém não o falso líder).

Portanto, Jesus não estava endossando a autoridade dos fariseus, e sim a da Bíblia.

O Novo Testamento grego não apóia a idéia de que existem clérigos e leigos na igreja?
“A dicotomia clérigo/leigo é uma falha trágica que percorre a história da cristandade.” (Frank Viola)

Essa dicotomia é defendida por muitos pela via do dogmatismo; não possui suporte bíblico.

A palavra “leigo” é derivada da palavra grega laos. Ela simplesmente significa “povo”, e, no Novo Testamento, inclui todos os cristãos, inclusive os líderes. A palavra aparece três vezes em 1 Pedro 2.9-10, onde Pedro se refere ao povo (laos) de Deus. Nunca essa palavra é usada para significar uma parte do povo de Deus.

Já a palavra clérigo é derivada de kleros. Kleros significa “herança”. A palavra aparece em 1 Pedro 5.3, onde Pedro exorta os presbíteros a não serem senhores (dominadores) sobre a herança de Deus (o seu povo). Kleros nunca significa “líderes” no Novo testamento. Assim como a palavra laos, ela se refere sempre ao povo de Deus – pois o povo de Deus é a sua herança.

De acordo com o Novo Testamento, portanto, todos os cristãos são clérigos e todos também são leigos. Nós somos a herança de Deus e também seu povo.

A dicotomia clérigo/leigo é pós-bíblica e prejudica a igreja. Ela advém da idéia pagã de separar a vida espiritual da vida secular. No Novo Testamento, é ensinado que toda a nossa vida deve trazer glória a Deus, inclusive a vida cotidiana.

Os sete anjos das igrejas no livro de Apocalipse representam a presença de um pastor único em cada igreja local?

A referência a anjos das igrejas em Apocalipse é difícil de entender. O autor não nos dá uma pista sobre a identidade deles.

Além disso, não existe no Novo Testamento a idéia de pastor solo em uma igreja local. A liderança é sempre plural (Atos 20.17; 20.28). Também não se vê no Novo Testamento a simbolização de anjos para pastores.

Portanto, deduzir a doutrina do pastor-solo a partir dessa passagem é uma exegese falha.
Enfim, como se pode ver, não há suporte no Novo Testamento para a liderança hierárquica, posicional, derivada de cargos e títulos “oficiais”. A liderança praticada nas modernas igrejas institucionais é derivada da imitação do governo mundano, imposta à igreja pelo Imperador Romano Constantino, e não seguida a partir das Escrituras neo-testamentárias.

Mas, que mal há nisso? O mesmo mal que existe sempre que o povo de Deus quer imitar o mundo, ao invés de seguir a Deus. Basta lembrar que o Senhor não queria que Israel tivesse um rei humano, e eles teimaram e pediram a Samuel para instituir um, a exemplo das outras nações (pagãs). Embora a misericórdia de Deus seja grande, as conseqüências para Israel foram terríveis. Pouquíssimos foram os reis bons de Israel. O que Deus disse a Samuel quando o viu triste por causa do pedido da nação Israelense para ter um rei humano? “Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo; não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei.” (1 Sam. 8.7). Há sempre um mal em rejeitar a Deus como rei, e em estabelecer homens em seu lugar. Há um mal em rejeitar a Cristo como “a autoridade” da igreja, e estabelecer homens como autoridades oficiais. E há conseqüências ruins disto, como, aliás, se vê nas igrejas institucionais, manifestas como vaidade e briga pelo poder. Tudo é vaidade.

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