FRASE DA SEMANA: [Quote of the Week:]
"Liturgias, antigas ou modernas, escritas ou não, são uma ferramenta humana para manter as engrenagens religiosas rodando, reproduzindo o costumeiro, ao invés de exercitar a fé na presença imediata e operação do Espírito."
Arthur Willis

Repensando a Cobertura Denominacional e Espiritual

“Irmãos, não lhes pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo como mundanos? Pois quando alguém diz: “Eu sou de Paulo”, e outro: “Eu sou de Apolo”, não estão sendo mundanos? Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um.” (Paulo de Tarso – 1 Cor. 3.1-5. NVI)

Muitos e muitos cristãos em todo o mundo acreditam piamente que uma denominação religiosa pode proteger os cristãos do erro e da heresia. Porém, isto é uma ilusão.

A “Cobertura Denominacional” é uma idéia fantasiosa de que, se eu pertenço a uma denominação cristã, eu estou magicamente protegido do erro. A verdade é que há um grande número de pessoas que já pertenceram a denominações, e que se afastaram do Cristianismo, teologicamente e moralmente. É certo que alguns desses nunca passaram por uma experiência verdadeira de conversão, mas muitos deles são autênticos cristãos, e mesmo estando em uma denominação, caíram no erro doutrinário e na imoralidade.

A noção de que pessoas estão “cobertas” se prestarem contas espiritualmente a uma organização do tipo hierárquica, é pura ficção. A única proteção espiritual que existe contra o erro é a submissão ao Espírito da verdade, e à Palavra de Deus, num contexto de um corpo local  e relacional de cristãos, como disse João:

“Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou.” (1 João 2.27. NVI)

A idéia de Deus de submissão e prestação de contas funciona da comunidade para a pessoa, e não do clérigo para a pessoa. Não é o clérigo (pastor/padre) quem presta contas a Deus sobre as pessoas, mas toda a comunidade local, coletiva e individualmente presta conta a Deus, diretamente. A nossa proteção espiritual vem do relacionamento pessoal com Cristo e com o Espírito Santo, e da conexão com outros cristãos, como irmãos e iguais, e não há mediadores entre Deus e os homens, a não ser Cristo (1 Tim. 2.5). O sistema legalista e hierárquico da submissão a uma denominação é uma substituição artificial – humana – da sujeição mútua que ocorre nos relacionamentos entre cristãos, e que por sua vez decorre do próprio Espírito de Deus em seus corações.


Denominação – Controle e Poder

Se você duvida que o sistema denominacional funciona na base do controle e do poder, tente questioná-lo para ver o que lhe acontece. Se você ficar numa denominação e levantar qualquer questionamento sobre seu tipo de autoridade eclesiástica, perceberá a força da mão poderosa que a denominação possui... contra você. Será diminuído ou até humilhado na comunidade, e se você ocupa algum cargo, este, quase que certamente, lhe será tirado. Por outro lado, se você sair da igreja institucionalizada e se tornar um dissidente, porque acredita que o estilo de liderança dela não é bíblico, você será classificado como herege, como criador de problemas, ou como um “insubmisso rebelde”.

Conheço alguns irmãos que deixaram as instituições religiosas e estão aprendendo a sofrer com o seu Senhor “fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou.” (Heb. 13.13 – NVI)

É muito interessante que os que defendem o sistema denominacional argumentam que ele funciona como um salva-vidas contra as seitas. Porém, a ironia é que o próprio conceito de "cobertura denominacional" é extremamente similar à noção de liderança do tipo dominadora, que caracteriza as seitas modernas.

Nas denominações, os membros seguem, sem reservas, um líder, um conselho de líderes, ou uma organização, do mesmo modo como ocorre nas seitas. As denominações agem como déspotas com relação aos seus membros. Em contraste, o princípio neotestamentário de sujeição enfatiza a submissão uns aos outros, e não a obediência a um líder ou a uma organização hierárquica.

O Falso Conceito de “Igreja-Matriz e Igrejas Filiais”

A Bíblia nos diz em Atos que todas as igrejas nascidas nos primeiros anos que sucederam o Pentecostes foram originárias da igreja de Jerusalém. Porém, não diz que essas igrejas desenvolveram um relacionamento subserviente com a igreja de Jerusalém, como se elas fossem filiais ou franquias de uma empresa, instaladas em outras localidades. Ao contrário, o que se vê em Atos e nas cartas apostólicas é que as igrejas eram independentes, embora fraternalmente relacionadas. As igrejas primitivas tomavam suas próprias decisões, sem qualquer controle externo.

Em Deus, cada igreja é parte do Corpo do Senhor Jesus Cristo, juntamente com todas as outras. Mas cada igreja é independente, auto-liderada, e responsável diretamente perante Deus por suas decisões (assim como cada cristão presta contas diretamente a Deus). O conceito de uma “igreja-mãe” governadora, ou de um quartel general denominacional é baseado em uma interpretação errônea das Escrituras.

Para Paulo – o apóstolo – cada igreja é diretamente responsável por seus atos e presta contas diretamente a Deus:

“Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual.” (Col. 1.9. NVI)

A federalização de igrejas foi um erro grosseiro que aconteceu na história – e cujo fruto maior foi a Igreja Católica Romana. O que se percebe no Novo testamento é que cada igreja local está submetida à mesma cabeça – Cristo, embora possam e devam cooperar umas com as outras, e ajudar umas às outras em suas necessidades, como aconteceu no primeiro século (Atos 11.28-30; Rom. 15.25-29; 16.1; 1 Cor. 16.19; 2 Cor. 8.1-14; 13.13; 1 Tess. 2.14; Filip. 4.22). Ao mesmo tempo, todas as igrejas devem guardar as tradições que os próprios apóstolos estabeleceram, tais como reunir-se nos lares, orar, partir o pão, estudar as Escrituras, ajudar os necessitados etc. (1 Cor. 4.16-17; 7.17; 11:16; 14:33; 1 Tess. 2.14). Cada igreja local desenvolve sua própria supervisão e ministérios, de acordo com os dons espirituais dados aos seus membros, e cada uma dá o seu próprio testemunho no mundo.

Não há evidências no Novo Testamento de que uma igreja tenha o direito de regular, governar, controlar ou de se intrometer nos assuntos ou práticas de outra assembléia de cristãos. Alguns contra-argumentam afirmando que o concílio de Atos 15 foi o precedente bíblico para a “igreja mãe” governadora. Entretanto, uma análise mais cuidadosa mostrará que esta é uma aplicação errada do texto. Paulo e Barnabé não foram à igreja de Jerusalém porque esta tinha autoridade hierárquica e unilateral sobre as demais igrejas. Leia o capítulo em todo o seu contexto, e esta noção cairá por terra.

O que ocorreu foi que algumas pessoas provenientes da igreja de Jerusalém introduziram um falso ensino na igreja de Antioquia. Paulo e Barnabé, então, se prontificaram a visitar a igreja de Jerusalém e tratar do assunto. Por que? Simplesmente porque o erro se originou da igreja de Jerusalém! (Atos 15.1-2, 24). Se o falso ensino tivesse se originado na igreja de Antioquia, Paulo, Barnabé e os demais irmãos da própria igreja de Antioquia teriam tratado do problema localmente. Mas, como a falsa doutrina surgiu de Jerusalém, Paulo e Barnabé foram lá para apontar quem introduziu o falso ensino. E também foram a Jerusalém para se certificarem de que os doze apóstolos e os presbíteros daquela igreja local não afirmaram o falso ensino.

Assim que eles chegaram a Jerusalém, os que eram da igreja de Jerusalém e haviam ensinado a falsa doutrina em Antioquia foram identificados (Atos 15.4-5). Isto motivou um concílio local temporário, e a igreja de Jerusalém repudiou publicamente o falso ensino daqueles homens. Uma carta foi escrita com cópias a todas as igrejas para prevenir que tais homens criassem problemas em outros lugares, em nome da igreja de Jerusalém. E, como a decisão foi dirigida pelo Espírito Santo (15.28), a carta revestiu-se de autoridade divina.

Como se vê, não há nada no Novo Testamento nem no concílio narrado em Atos 15 que indique que a Igreja de Jerusalém tinha supremacia sobre as demais igrejas no primeiro século, ou que as igrejas fossem subservientes a ela, embora lá estivessem os onze apóstolos originais de Jesus, além de Tiago – irmão do Senhor – e de Matias, que substituiu Judas no grupo dos doze. Nenhuma igreja era subordinada à outra. O conceito de “igreja-mãe” autoritária carece de base bíblica.

O Denominacionalismo É um “Tiro No Pé”

O moderno sistema denominacional justifica sua existência pregando que sua função é proteger a igreja do erro. Paradoxalmente, ele é um sistema que ajuda a propagar erros e heresias – aquilo do qual ele mesmo afirma proteger a igreja. Pense nisto. Se a natureza autônoma de cada igreja, segundo o Novo Testamento, tivesse sido preservada até hoje, a difusão de um erro ou heresia seria apenas local. Mas quando o “quartel general” de uma denominação é infectado com uma falsa doutrina, todas as igrejas a ele conectadas abraçam o mesmo erro. Assim, as denominações propagam os erros, ao invés de inibi-los.

Além disso, se cada igreja fosse autônoma, dificilmente emergeriam líderes ambiciosos para exercer controle sobre um conjunto de comunidades de cristãos. Esses megalomaníacos não teriam interesse em dominar apenas uma pequena comunidade de discípulos; seria virtualmente impossível surgir uma figura do tipo “papal”. Porém as denominações (evangélicas e católicas) promovem o surgimento deste tipo de líderes carismáticos que amam o poder.

A esta altura pode ser dito que formar (ou fundar) uma denominação é pecar contra Deus. Foi isto que Paulo afirmou quando os irmãos de Corinto estavam se dividindo em torno de alguns líderes. Paulo os considerou carnais e mundanos por estarem criando denominações cristãs. Denominações são formadas quando alguns cristãos se separam do grande Corpo de Cristo internacional para seguir suas doutrinas e práticas favoritas, e criar uma instituição ou um movimento em torno delas.

O denominacionalismo tem fragmentado o Corpo de Cristo com seu partidarismo religioso. Existem atualmente cerca de trinta e três mil denominações cristãs no mundo! Os “advogados” do denominacionalismo crêem que este sistema é útil á igreja e que as diferentes denominações “representam diferentes partes do Corpo de Cristo”. Porém, o sistema denominacional é estranho aos princípios do Novo Testamento. É incompatível com a unidade cristã, e é baseado nas divisões humanas – o que é biblicamente injustificável. E ainda por cima, funciona contrariamente à unidade na diversidade que existe na Trindade divina.

E as Doutrinas Essenciais?

Através dos séculos, os cristãos têm preservado as crenças centrais de nossa fé, tais como: existe um único Deus, criador do universo; Jesus Cristo é Deus e Homem ao mesmo tempo; Jesus Cristo nasceu de uma virgem; o ser humano é pecador; Cristo foi crucificado para expiar nossos pecados, ressuscitou corporalmente etc.

Essas crenças centrais não pertencem a nenhuma denominação ou tradição eclesiástica particular. Ao invés disso, elas são a herança de todos os verdadeiros crentes. Elas refletem a voz da igreja ao longo da história. As doutrinas essenciais da fé são o que o C. S. Lewis chamou de Cristianismo Puro e Simples, em seu livro de mesmo nome (o qual, aliás, recomendo).

Portanto, é preciso que se diga que o chamado a repensar a igreja do Novo Testamento não nos dá o direito de reinventar as doutrinas essenciais do Cristianismo, nem de rejeitar o que nos foi repassado pelos primeiros líderes cristãos. Por outro lado, tudo o que for pós-apostólico deve ser criticado e analisado com base nas Escrituras, pois são elas que nos dão a própria tradição apostólica. O chamado para o retorno ao cristianismo orgânico do Novo Testamento apoia cada voz que, ao longo da história, se manteve harmônica com a revelação apostólica – não importando qual foi o segmento ao qual pertenceram.

Com isto queremos dizer que, pela misericórdia de Deus, ele mesmo levantou homens e mulheres que, apesar de pertencerem à alguma denominação, deram contribuições valiosas ao entendimento da Bíblia, e que as igrejas orgânicas abraçam as doutrinas essenciais legadas à igreja ao longo dos séculos por esses servos de Deus. Somos, neste sentido, ortodoxos.

No fundo, a doutrina da “cobertura denominacional” não passa de um disfarce para a sede de domínio e o controle que alguns ambiciosos líderes possuem sobre os servos de Deus. Por isto ela não “bate” com a idéia bíblica da mútua sujeição de cada irmão com relação aos outros. E representa um afastamento do conceito de Deus acerca da autoridade na igreja. Intencionalmente ou não, a doutrina da “cobertura” infringe medo a milhares de cristãos.

O antídoto para o veneno do erro, da heresia e do separatismo não é a “cobertura denominacional” ou “cobertura espiritual”. É a sujeição uns aos outros na igreja local. É a mútua submissão de cada irmão para com o outro, de cada um para com sua própria comunidade cristã, para com as Escrituras, e para com o Cabeça do Corpo - Cristo Jesus!

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